sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Help

Há pouco tempo entrei numa livraria para procurar um livro.*

Enquanto eu examinava a profusão de cores ao meu redor e me lembrava que, em relação às livrarias do mundo real atual, a minha imagem mental de uma livraria, formada na minha infância, parece mais uma caverna filmada em preto e branco (ou black and white, como diria o miguel filho do jack), a moça vem e me pergunta se pode me ajudar. Respondo que procuro determinado livro, ao que ela me diz: ah, é aquele de auto-ajuda, né?

Aquela colocação me provocou uma profunda reflexão de um nanosegundo - alguma coisa estava fora da ordem. Pois veja, se se considerar que aquele livro pode, de alguma forma, ajudar alguém, como dizer que se trata de auto-ajuda, se não fui eu quem o escreveu? O bom samaritano ou é o autor ou, pra ser bem gnóstico, o próprio livro. Eu? Não.

Fora que, se aquele livro, ou qualquer outro, é de auto-ajuda, qual não será?

Saí de lá intrigado. Passei num sebo e comprei o livro.





*Não, entrou lá para pegar uma parada de maconha - pelamordedeus.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Vazio

Quando o homem entrou pela porta, nada passava em sua cabeça. Não lembrava mais do cachorro de sua infância, nem de quando as ruas eram de terra, ou do quanto era feliz ontem, nem do quanto é infeliz hoje. Não pensava que seria ótimo comer um prato de mexido de banana com queijo, nem lembrava do quanto gostava de tomar um vinho.
Mulher, não lembrava nem que existia, quanto menos do cheiro que traz entre as pernas ou o gosto dos peitos.
A raiva pela dinâmica das relações (im)pessoais do mundo, o amor pela família, a compaixão pelos animais - nada.
Todo o seu ser, e também seu não ser, tudo tomado por uma angústia sem fim, nem começo, nem limites, que ao mesmo tempo lhe sufocava completamente e lhe trazia a urgência de correr como Forrest Gump.
De todas as lembranças ausentes, talvez a principal fosse o momento exato em que se perdeu, em que as coisas deixaram de estar tudo bem para se tornarem um tormento sem fim.
Olhou muito tempo pela janela, e não entendia como tudo lá fora era tão bonito, e como tudo dentro era tão hostil.
Então lembrou de Deus, ou das pessoas lhe falando sobre Deus, e pensou como é que podiam existir tantos deuses no mundo, um para cada ser consciente da Terra. E se questionou se o seu Deus poderia lhe indicar a saída. Porque ao contrário de várias pessoas que conhecia, não acreditava muito que depois de ter ganhado a vida, um corpo (quase) perfeito, inteligência, sensibilidade, uma ótima infância, poderia ainda pedir alguma coisa. A existência já não é o maior presente?
Antes que chegasse a alguma conclusão, sua atenção foi captada pelo não-vôo de um beija flor azulado com a cara enfiada numa flor de ipê. E, mais uma vez, esqueceu de si. E berrou, com força igual a imensa dor que sentia, tão alto que ninguém ouviu. Ninguém nunca ouviu aquele berro, como todos os outros anteriores. E se encolheu, querendo dormir, talvez. E dormiu, desejando nunca mais acordar.

sábado, 3 de outubro de 2009

Me diz: porque o céu é azul?

O menino tinha uma coleção de pupas. Pupa é a fase da vida da borboleta em que ela não é nem lagarta, nem borboleta. Ela só é. Casulo não é conteúdo, é continente.
Pegava um pedaço de linha dez e ia prendendo a hastesinha das pupas com um nó-de-correr, e deixava pendurado o varal de metamorfoses em cima do tanque.
Era fascinante ver aquela lagarta em preto e amarelo, parando de cabeça para baixo de uma hora p/ outra, dependurando-se com a bunda, fazendo um abdominal e ir tecendo com as mil pernas aquele casulo verde com dourado.
Nessa hora dava p/ colher as pupas, e pendurar no varal. Depois, elas iam escurecendo, ficando azuladas, acinzentadas, até que dava pra ver a borboleta apertadinha lá dentro, a casca da pupa já totalmente transparente.
Então a borboleta sai, e abre as asas. Fica abrindo e fechando as asas para secar e endurecer, e depois de quase um dia desse jeito, sai voando. Qualquer treta na hora de sair, faz a asa enrolar em si mesma e aí já era.
Como era mágico assistir a uma metamorfose. Ele se certificou que não sobrava nada mesmo, abrindo com estilete as pupas em diversas fases, e viu que só o que havia era um líquido fedorento.
No futuro, ele iria pensar que as crianças têm que aproveitar a facilidade natural de enxergar milagres, senão o adulto nunca vai conseguir ver nada que importe de verdade.
Saberia ele que o poder do Sol causa menos impacto que a versão nova do iPhone. Que a água evaporando, depois caindo, depois refletindo um arco íris, passa despercebido perto da marca da Red Bull ou dos móveis padronizados da Toc Stok. Que o vôo dos aviões é mais admirado que o dos pássaros, e que a beleza da TV de plasma chama mais a atenção que os próprios fundamentos da existência da eletricidade, das ondas de rádio e do campo eletromagnético, que ninguém inventou, mas que move tudo que foi inventado.
Saberia ele que o grande milagre da vida é o despertar para o fato de que tudo na vida é um milagre.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Orgia

Na vida de um homem, passam alguns homens. Um cara tem várias histórias com outros caras, afinal de contas esse lance que mistura afinidade sem motivo com algumas outras coisas, e que foi denominado amizade, é um vínculo muito forte, talvez o mais forte dentre os vínculos voluntários. Acho que só o fato de ter a capacidade de ignorar vários preconceitos, inignoráveis por outros tipos de relação, já mostra sua força.

Passam, entretanto, muito mais mulheres que homens na vida de um cara.
O porquê disso, acho que cada um tem o seu. Mas as meninas estão aí, por todos os lados, te olhando com todo o tipo de olhar que existe.

O lance é que os sentimentos pelas outras pessoas não são estanques e nem exclusivos, de forma que as relações misturam características de vários deles, e talvez a gente identifique qual é apenas pelo trejeito preponderante (que também é mutante), ignorando o resto.

Eu diria que até mesmo as sensações são assim, o que possibilita a alteração da percepção do mundo pelos sentidos, como se a realidade, incluindo as relações humanas, fossem na verdade uma faixa de frequência.

Por isso gosto de gente que consegue oscilar um pouco a sintonia - dá para vibrar um pouco usando a antena alheia (num sentido totalmente não-sexual), para abordar a realidade com outra atitude, aprofundando um pouco mais o contato direto com o mundo, que ao mesmo tempo é o contato direto consigo próprio.

E fazer isso com uma menina, aí é que é legal. O que ela capta é muito diferente do que capto eu. Acho que um brasileiro é mais parecido com um bielorusso do que com uma brasileira, então dá pra aprender a falar até esperanto.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Corrosão

Coisa difícil de aceitar é que os nossos erros não anulam nossos acertos. A imperfeição não invalida as virtudes que se tem.
Pra conseguir ser livre de verdade, é preciso perdoar. Mas tem que ser tudo e todos. E o perdão mais difícil é o concedido a si próprio.
Eu acho impossível alguém conseguir dar o que não tem, então só quem conseguiu o auto-perdão é que pode ser capaz de perdoar outras pessoas.
Acho que o auto-perdão é a pedra fundamental para a libertação da culpa, e a libertação da culpa te dá asas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

FUCK ME YOU

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Alma

Ela virou pra mim e falou que eu era mais corajoso, entrando consciente naquela onda. Na hora, pensei que isso não tinha nada de coragem, mas de natureza, de falta de opção mesmo. Vai ou vai - o outro jeito é negar o próprio destino, tentar controlar o suceder das coisas.
E não dá mesmo não, porque o fato de saber que você vai ganhar de presente uma dose bem servida de intranquilidade de alma é também de uma atração e fascínio irressistíveis, como luz para mariposa.
Ninguém com alguma coisa correndo quente nas veias vai jogar fora uma oportunidade de ter o sossego um pouco perturbado por aquela brisa típica, mais ou menos como a brisa etérea que envolve São Tomé das Letras e que a gente sente com todos os sentidos.
É como nunca mais sentir o vento na cara e no cabelo por preguiça de correr.

As alterações na percepção do mundo sempre trazem conhecimento, sempre são proveitosas, colocando tudo em perspectiva. Se a impermanência é a lei que rege o universo, então a criatividade e liberdade de abordagem das questões são caminhos de crescimento pessoal e transpessoal, e isso traz poder.

Nenhum tipo ou tamanho de paixão foi feita para ser abortada, como diz meu camarada Lanolina. Paixão foi feita pra ser vivida, pra consumir e ser consumida.
Pra te dar consciência da fragilidade da forma, da efemeridade das coisas manifestadas.

E ainda tem a vantagem de ser um trem totalmente egoísta, sem culpa nem remorso, de forma que não tem muito conflito não - a paixão sabe muito bem o que quer e não em escrúpulos, e te impulsiona a realizá-la. Quando a casa cai, a paixão já foi embora, ilesa, mas as consequências permancem.

Vai falar que você acha ruim?